PAINEL Nº: 16
Antropologia: que contributos para os estudos interdisciplinares acerca da infância?
Dia 10 Set
15:30/17:30
Dia 11 Set
9:00/11:00
SALA C1.03 ISCTE
COORDENAÇÃO
Ângela Nunes, CIES – ISCTE – Instituto Universitáriode Lisboa, Instituto de Educação da Universidade do Minho (anunes@iec.uminho.pt)
Manuela Ferreira, UPCE, Universidade do Porto (manuela@fpce.up.pt)
RESUMO
A pesquisa acerca da infância e das crianças iniciada no âmbito da Sociologia e Antropologia há cerca de duas décadas atrás, abrange um campo crescentemente interdisciplinar denominado Estudos da Infância (Childhood Studies), cuja vitalidade se exprime no reconhecimento e consolidação institucional entretanto alcançados, como atestam o aumento de especializações neste domínio em Cursos de Mestrado e Doutoramento, de eventos e de publicações científicas, internacionais e nacionais, a criação de centros de investigação e de comités em organizações científicas internacionais (ISA, AFIRSE, AAA).
Ora, a constatação de que a presença da Antropologia nestes estudos tem sido extremamente discreta, contrastando com outras disciplinas como a Sociologia, afigura-se-nos um paradoxo que instiga à reflexividade científica. Mais precisamente: determinados conceitos-chave e aquela que constitui a metodologia recorrente na investigação antropológica, a Etnografia, têm sido eleitos, evocados e usados para compreender a sociedade a partir do fenómeno social da infância bem como a diferença que, radicada na alteridade face aos adultos, se exprime em modos particulares de interpretação, classificação e simbolização do mundo pelas crianças.
A assunção de que a Antropologia como ciência voltada para a compreensão do outro, e com longa experiência na reflexão sobre questões de “representação” e “voz” e na pesquisa focalizada na diversidade dos povos do mundo, é imprescindível para revisitar e indagar o conhecimento social disponível acerca das crianças, e para traçar estratégias de investigação capazes de incrementar dos Estudos da Infância, justifica o tema deste painel.
O seu duplo objectivo - dar visibilidade à pesquisa em Antropologia acerca da infância e crianças, e à sua contribuição específica -, converte-se então num apelo endereçado aos pesquisadores para que submetam comunicações que dêem a conhecer pesquisas etnográficas susceptíveis de gerar a reflexão sobre questões teóricas, metodológicas e éticas, e de aprofundar o debate epistemológico em curso.
COMUNICAÇÕES
Contributos da etnografia para um novo olhar sobre as crianças em educação de infância
Ana Levy Aires, ESEI Maria Ulrich (levyaires@yahoo.com)
Nesta comunicação, pretendo analisar e discutir os contributos da etnografia para a elucidação dos problemas educativos e adequação das estratégias do currículo aos interesses e realidades das crianças. Os dados a apresentar resultam de notas de campo, memorandos e relatórios de investigação respectivamente sobre: processos de construção social do real através da brincadeira em crianças de 2ª infância e processos de reconhecimento e aprendizagem do gosto alimentar em contexto de jardim de infância.
A questão que coloco é se a etnografia com crianças não se constitui como um possível modelo de intervenção pedagógica reflexiva em que são, plenamente, contemplados os pontos de vista das crianças. Contemplar o ponto de vista das crianças implica observar, ouvir, perguntar, participar nos seus interesses, problemas, actividades e aprender que o ritmo das investigações e projectos depende da sua adesão às propostas do etnógrafo.
Partindo de uma diferença inicial fundadora – a diferença adulto/criança – a etnografia com crianças obriga a repensar poderes e saberes de uns e outros, possibilitando uma relação mais simétrica entre os dois mundos que representam e o efectivo acesso das crianças ao tema e instrumentos da pesquisa.
Assim, considero que os estudos sobre processos de aprendizagem e as práticas dos educadores precisam alicerçar-se numa etnografia, “densa”, desenvolvida com crianças que permita compreender “por dentro” as suas formas de interpretar, interiorizar e expressar o mundo, ultrapassando práticas educativas que visem a mera aquisição de competências técnicas e que mobilizem totalmente a(s) criança(s).
Crianças indígenas no Brasil: o diálogo da etnologia indígena com a antropologia da infância
Clarice Cohn, Universidade Federal de São Carlos, Brasil (clacohn@ufscar.br)
Os estudos sobre crianças indígenas no Brasil têm crescido em número e engendrado importantes debates metodológicos e conceituais. Elabora-se cada vez mais o diálogo entre dois campos de especialidade na antropologia, os estudos sobre crianças e os estudos sobre as populações indígenas, e uma série de pesquisas revelam a produtividade desse diálogo, que deve ser aprofundado de modo a melhor se compreender a condição e a especificidade dessas crianças. Essa comunicação pretende debater essa questão a partir da pesquisa com os Xikrin do Bacajá (Pará, Brasil), analisando a ornamentação corporal das crianças xikrin para demonstrar como a infância, e suas diversas etapas, são por ela marcadas. Busca-se portanto aliar um tema importante da antropologia da criança, a especificidade social da infância e de suas realizações, a um tema caro à etnologia indígena brasileira e que tem se revelado produtivo para os estudos das populações de língua jê, como o são os Xikrin, a saber, a corporalidade e a noção de pessoa.
Etnografia versus métodos participativos na investigação da infância? Possíveis respostas a partir do trabalho de campo com crianças em Maputo.
Elena Colonna, Instituto de Educação da Universidade do Minho (elenacolonna@iec.uminho.pt)
No início dos anos 90, o reconhecimento da utilidade dos métodos etnográficos representa um dos aspectos-chave do paradigma de investigação sociológica da infância, uma vez que estes são considerados capazes de transportar uma voz e uma participação mais directas das crianças na produção de dados em relação a outros métodos. Nos anos a seguir, as investigações realizadas no campo interdisciplinar dos Estudos da Infância têm vindo a utilizar e promover cada vez mais o uso de um conjunto de métodos chamados “participativos”, procurando ouvir a voz das crianças e instituir formas colaborativas de construção do conhecimento. Hoje em dia, alguns autores consideram os métodos participativos como uma válida alternativa à etnografia, julgando-os menos invasivos e mais transparentes, enquanto outros investigadores argumentam que não podem existir técnicas realmente participativas se não aplicadas dentro de uma relação etnográfica com os sujeitos da pesquisa. Esta comunicação pretende explorar as diferentes relações que podem ser estabelecidas entre métodos etnográficos e participativos, a partir de uma investigação com crianças de um bairro periférico da cidade de Maputo. Com o objectivo de conhecer a experiência específica de “ser crianças” dos meninos e meninas da zona, dependendo da situação e dos sujeitos envolvidos, estes métodos foram considerados as vezes alternativos e outras complementares. O trabalho de campo demonstra como a relação entre estes métodos, mais do que assumida a priori, pode ser avaliada e negociada ao longo do processo de investigação.
Identificação Étnico/Racial: a voz de crianças em espaço de Educação Infantil
Cristina Teodoro Trinidad, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (cris.teodoro@ig.com.br)
A pesquisa está em andamento no Programa de Pós-Graduação: Psicologia da Educação da PUC-SP. Objetiva compreender e responder quais os sentidos e significados que crianças entre quatro e seis anos de idade atribuem à identificação étnico/racial e como eles são explicitados no espaço de educação infantil. No Brasil, são poucas as pesquisas que privilegiam as crianças como atores sociais em condições de explicitarem sua compreensão sobre seu pertencimento étnico/racial. Esse distanciamento parece estar à complexidade de se discutir cor/raça no Brasil; e ao fato de não se considerar as crianças como sendo sujeitos de pesquisa. Se as investigações realizadas com esse foco no Brasil são raras, o mesmo não ocorre EUA. Lá, desde a década de 1940, pesquisadores vêm se debruçando sobre a complexidade dessa área de estudos, enfocando crianças em faixa etária pré-escolar. Entretanto, conforme aponta Holmes (1995), não existe, nesses estudos, uma metodologia apropriada para ouvir a voz das crianças. A pretensão do presente estudo é justamente alocar às crianças o papel de protagonista da história. O referencial teórico para a análise é aquele que aporta sobre a constituição da identidade étnico/racial, o que é elaborado pela Psicologia Sócio-histórico, especificamente o debruça sobre a constituição sobre os sentidos e significados, e, ainda, aqueles que estiverem em consonância os estudos da Sociologia da Infância. A pesquisa qualitativa terá como sujeito crianças que freqüentam uma escola de Educação Infantil. A coleta de dados será por meio da: Observação participante; Desenhos seguidos de comentários orais; Brincadeiras de faz-de-conta e conversas informais.
Gênero e Cidadania do ponto de vista das crianças (meninas): Experiências com o Caderno de Cidadania.
Ana Cláudia Delfini Capistrano de Oliveira, Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade do Vale de Itajaí (anaclaudia@univali.br)
Este texto faz parte da tese de doutoramento em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina/Brasil, cujo tema principal é a análise dos estudos de gênero na interface com os estudos mais recentes da Antropologia da Criança e da Sociologia da Infância (SI). Para tanto, este texto apresenta alguns resultados de oficinas realizadas com as crianças de uma organização não-governamental – CEIFA – integrante de extensão do Programa de cidadania infanto-juvenil comunitária:Caderno de Cidadania, da Universidade do Vale de Itajaí. As oficinas foram realizadas com a equipe do projeto que utilizou com as crianças as estratégias metodológicas propostas na obra Investigação com crianças: perspectivas e práticas (Porto, 2005). O embasamento teórico das oficinas foi construído a partir de dois referenciais – em primeiro lugar a SI que entende as crianças como atores sociais e co-participantes da sociedade e, em segundo lugar, os referenciais da epistemologia feminista que contribuem para a crítica da categoria “criança” como insuficiente para analisar as especificidades do universo infantil feminino. Assim, com os relatos das crianças sobre os temas atinentes à cidadania e ao gênero, é possível analisar o ponto de vista delas e suas experiências culturais como definidoras na construção das identidades femininas na infância.
Pesquisando o invisível: percursos metodológicos de uma pesquisa sobre sociabilidade infantil e diversidade religiosa
Roberta Bivar Carneiro Campos, UFPE, Brasil (robertabivar@gmail.com)
Com a colaboração dos estudantes e bolsistas de iniciação científica: Geová Silvério Paiva Junior, Stephanie Gomes, Juliana Cintia Lima e Silva, Paula Neves Cisneiros
A artigo é resultado de pesquisa, apoiada pelo CNPq, que teve por enfoque a compreensão das reações à diversidade religiosa nas escolas, em Recife-Brasil. A pesquisa envolveu a investigação da significação da experiência da identidade religiosa entre crianças do 5º ano do ensino fundamental (antiga quarta série) de uma escola privada e outra pública num contexto laico, em Recife, mas que, segundo compreendemos, é impregnado de conteúdos religiosos que se interconectam com outras diferenças (sociais e raciais). Além dos aspectos afetivos e de seus significados, a experiência da diversidade foi investigada em termos da sua dimensão prática expressa em conflitos e negociação. Nesta comunicação temos por objetivo compartilhar, de maneira analítica, os percursos metodológicos trilhados por essa pesquisa na abordagem da sociabilidade infantil e das reações das crianças à diversidade religiosa. O principal desafio enfrentado, do ponto de vista metodológico, foi a invisibilidade da criança nos estudos antropológicos sobre questões religiosas e de sua sociabilidade, em especial, no que concerne às reações à diversidade religiosa no espaço escolar brasileiro.
Proteger e corrigir: crianças em risco e as politicas culturais da infância em Cabo Verde
Lorenzo Bordonaro, CRIA (lorenzo.bordonaro@iscte.pt)
Nesta comunicação, baseada num trabalho etnográfico com crianças ‘em risco’ e suas famílias nos bairros espontâneos de Praia, procuro reflectir sobre as politicas culturais para com a infância em Cabo Verde, e sobre sua recente evolução e articulação com padrões de governamentalidade internacional relacionados com a protecção do ‘interesse superior da criança’ por uma lado, mas também com a segurança urbana e o controlo da criminalidade transnacional. Desde os anos Noventa, Cabo Verde tem vindo experimentar importantes transformações politicas e económicas, que tem produzido uma polarização da sua população e uma crescente distinção de classe. Devido a migração interna, as duas cidades principais cresceram rapidamente nos últimos 20 anos, e são caracterizadas hoje para vários bairros espontâneos, onde pobreza e desemprego são comuns. As crianças e os jovens destes bairros, bem como suas famílias, se tornaram recentemente um tópico central do debate moral e politico da sociedade Cabo-verdiana, especialmente na sua associação com fenómenos de pequena criminalidade e consumo de droga. Têm sido portanto alvos de politicas e intervenções do Estado e de algumas ONGs. Muitos dos actores institucionais envolvidos no sector da protecção da criança todavia, assentam suas práticas e motivação em noções normativas relativas ao interesse das crianças, a estrutura familiar e o tipo de cuidado parental que uma criança precisa. A intervenção para com estes actores torna-se frequentemente uma operação de ortopedia moral: as consequências de complexas questões sociais e económicas são transformadas em questões de moralidade e competência, que responsabilizam as crianças e as suas famílias.
Nas ruas: pesquisando sexualidade e infância no Brasil.
Priscila Pinto Calaf, Rede de Informação Tecnológica Latino Americana (RITLA) (priscilacalaf@gmail.com)
Pensar sobre infância e sexualidade é o mote propulsor deste artigo. A partir de etnografia realizada com um grupo de meninos e meninas de rua de Brasília, são discutidas questões acerca de valores (produtores e produzidos pelas ruas) como liberdade, esperteza e valentia. Neste sentido, o foco das considerações girou em torno de representações próprias e alheias acerca de infância e sexualidade como operadoras do acesso a tais valores. Deste modo, busco entender como, para o grupo com quem estudei, a disposição ativa perene para o sexo é fator fundamental na construção das identidades masculinas e femininas, constituindo-se o status de saber mais sobre o sexo condição e prova de ser não mais apenas criança, mas muleque. No bojo da sexualidade como meio de acesso ao status de quem sabe mais, de circulação por um “mundo adulto”, são apresentadas questões outras, engendradas pelo exercício de uma sexualidade ativa e valorizada positivamente. Reflexões acerca das representações das ciências sociais sobre crianças e adolescentes em situação de rua e das possibilidades de construção de uma antropologia da (s) infância (s) combinaram-se a considerações sobre diversos conceitos e categorias etárias. Neste sentido, busco apresentar algumas considerações metodológicas acerca da pesquisa com “crianças” e sobre a infância.