SESSÃO PLENÁRIA I: ESTRUTURA E TRANSFORMAÇÃO
Moderação: Susana de Matos Viegas (Presidente da APA/ICS-UL)
Nesta sessão os conferencistas apresentam formas de repensar actualmente a relação entre estrutura e tempo, a partir das suas propostas teóricas centradas na reflexão sobre contextos etnográficos que normalmente não são postos em confronto comparativo – Amazónia e Ásia (Índia). A sessão pretende engajar as reflexões teóricas contemporâneas na antropologia a partir da sua estruturação comparativa.
Lévi-Strauss’ ‘double twist’ and controlled comparison :
Transformational relations between neighbouring societies
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Peter Gow
(Universidade de St.Andrews, Escócia/UK)
Beginning with his early article on the structural study of myth, Lévi-Strauss
proposed an analytical device for the study of higher-order transformational relations:
the canonical formula or the double twist. Here I want to explore the power of thisdevice for extending the power of the classical structural functionalist strategy of the
controlled comparison of neigbouring societies. Appling the double twist to the analysis of social phenomena form neighbouring societies from Southwestern Amazonia, I seek to show that these societies are component parts of open-ended systems of larger social orders of the type described by Lévi-Strauss as ensembles.
História, Conflito e Reforma Social: A Estrutura da ACção
Transformadora na Amazônia Indígena
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Carlos Fausto
(Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional,
Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Nesta apresentação, busco refletir sobre a estrutura da ação transformadora na
Amazônia indígena, a partir da análise de casos empíricos nos quais ocorreram mudanças que poderíamos qualificar como verdadeiras “reformas sociais”. Focalizarei, inicialmente, os processos de mudança observados entre os Parakanã (Tupi-Guarani) e entre os Marubo (Pano) durante o século XX. Nestes dois casos, descrevo a ação de certos personagens e os mecanismos de tomada de decisão que tornaram seus atos socialmente relevantes e conduziram a mudanças socioculturais importantes. Em seguida, passo da escala biográfica à escala histórica, focalizando as transformações por que passaram os Amuesha (Arawak) entre os séculos XVII e XVIII e os Guarani entre os século XVII e XX. Essa passagem de escala visa desestabilizar a oposição entre estrutura e agência, de modo a problematizar as interpretações unívocas e produzir uma interferência criativa entre elas.
Incredible India
Da aldeia ao mundo: trajectos etnográficos
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Rosa Maria Perez
(ISCTE /CRIA)
Há terrenos que se esgotam no exercício iniciático da imersão do antropólogo, que
se desloca, depois, para outros terrenos – ou para terreno nenhum. Não é este, todavia, o caso da Incrível Índia, emblema da política económica indiana de investimento no turismo e na sua diáspora, a mais densa e diversificada em composição e em extensão da contemporaneidade.
A minha comunicação acompanhará o percurso de um trabalho etnográfico
iniciado há mais de 20 anos numa aldeia do Gujarate à Índia global dos Booker Prize,
do fenómeno de Bollywood, da emigração dos cientistas e dos intelectuais e respectiva hollyodização, dos usos sociais da cultura indiana.
Este trajecto tem como objectivo evidenciar a centralidade da observação etnográfica
na produção antropológica e o seu impacto no observador quando exposto a
terrenos em célere transformação.
SESSÃO PLENÁRIA II: LÓGICAS DE PODER
Moderação: Jean-Yves Durand (Direcção APA, U. do Minho-CRIA)
Num momento histórico em que o real se encarrega de relembrar que as desigualdades têm consequências, seja em termos económicos, culturais ou de cidadania, importa redefinir e clarificar os contributos da etnografia e de uma antropologia crítica para a observação da variedade das formas e da materialização do poder. É igualmente indispensável avaliar as modalidades do exercício do poder enquanto vector de coerção ou condição de agência.
Ser mas não ser, eis a questão. O problema persistente
do essencialismo estratégico
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Miguel Vale de Almeida
(ISCTE e CRIA)
A expressão “essencialismo estratégico” (originalmente proposta por Spivak) refere
um tipo de solidariedade temporária para efeitos de acção social. O qualificativo
“estratégico” estabelece uma ressalva em relação ao denegrido “essencialismo” e, simultaneamente, suspende as propostas alternativas de muita teoria social pós-estruturalista (nomeadamente na esteira de Foucault e, mais recentemente, de Butler) que apontam no sentido do estilhaçamento das categorias identitárias. Muitos movimentos sociais de cariz identitário não vivem separados da reflexão teórica e confrontam-se com o dilema de, por um lado, recusarem os próprios termos da categorização de que são alvo e, por outro, necessitarem de identificação com as categorias de modo a poderem movimentar-se no espaço público. No campo analítico, os cientistas sociais confrontam-se também com o dilema de estas duas opções serem mutuamente exclusivas. Propõe-se, nesta comunicação, que uma análise de base etnográfica e processual sobre as relações entre conflito, identificação e solidariedade, poderá ser o único caminho para ultrapassar o que, afinal, poderão ser falsos dilemas - propugnados por quem, na ciência social, não envereda pela
etnografia ou por quem, nos movimentos sociais, não reflecte sobre as condições políticas da sua prática.
El poder de cambio y el trabajo de responsabilidad:
memoria, filiación y verdad
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Susana Narotzky
Universidade de Barcelona
Esta reflexión parte de la pregunta sobre el poder posible del lado de los que no
tienen poder. Se ha señalado la importancia de luchar contra la colonialidad del poder en el ámbito de las categorías de conocimiento, propiciar una ‘sociología de las ausencias’. Mi propuesta de reflexión pretende indagar en otra dirección: no tanto en las ‘rupturas’ de las categorías del conocimiento que son necesarias para generar espacios de posibilidad insurgentes, sino más bien en las vinculaciones y continuidades que son imprescindibles para crear las posibilidades de oponerse al poder.
Estas vinculaciones tienen que ver con la creación - descubrimiento, producción
o invención - de un lazo que conecte el pasado con el futuro, en términos de un proyecto de mundo y de un proyecto de vida. Interesa establecer el hilo de las responsabilidades simultáneamente en distintas escalas que van de lo más íntimo y personal (la pietas filial, el cuidado entre generaciones) a lo más general (la memoria de un pasado que guía la definición del proyecto de mundo futuro –en positivo o en negativo). Lo que parece jugarse en este trabajo de tejer la responsabilidad es el establecimiento de una verdad que defina no sólo la ucronía necesaria para guiar la acción (i.e. para qué se lucha), sino también que delimite el/los objetos de contención (i.e. contra qué se lucha). Emerge un ‘trabajo de responsabilidad’ necesario que articula responsabilidades públicas y privadas, propias y ajenas, singulares y colectivas.
As moedas imaginárias e os mercados haitianos.
Ideias preliminares sobre moedas, transações e estados nacionais
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Federico Neiburg
(NuCEC/PPGAS, Museu Nacional, UFRJ)
No Haiti boa parte das transações monetárias é realizada utilizando uma unidade de
conta (o dólar haitiano) que não existe fisicamente como moeda ou nota. O uso generalizado dessa moeda imaginária, em conjunto com a proliferação de outras moedas (gourde, dólar americano, euro, peso dominicano, peças cunhadas por particulares, etc.), revela questões relativas às articulações entre economia, soberania e poder estatal. Uma exploração etnográfica dessas questões leva a interrogações acerca dos sentidos sociais das moedas e das transações, acerca da dinâmica de produção dos pequenos lucros nas trocas entre moedas e unidades de medida, e acerca do lugar que os mercados ocupam na formação do espaço nacional haitiano.
SESSÃO PLENÁRIA III: LIVRE ARBÍTRIO
Moderação: João de Pina-Cabral (Vice-Presidente APA, ICS)
Em que medida somos nós livres para escolher o rumo das nossas acções? Em que medida é que as intenções que dirigem as nossas acções são acessíveis à nossa consciência? Estes são grandes temas que para sempre desafiarão a compreensão humana. Quando escrevemos etnografia, porém, estamos constantemente a presumir causalidades para as acções que descrevemos, se não o fizéssemos não poderíamos interpretar a acção (inclusive a comunicativa).
Destino, resistência, agência humana: um comentário em torno
do livre-arbítrio
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José Manuel Sobral
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
O conceito de hábito ou habitus tem exercido uma enorme influência nas ciências
sociais, e nomeadamente em antropologia, sendo utilizado por autores como Durkheim, Marcel Mauss, Ruth Benedict, Norbert Elias e Pierre Bourdieu. Embora este conceito possua uma forte capacidade explicativa na análise do carácter regular e previsível da acção humana, o mesmo não se afigura suceder quando se trata de atitudes em que os agentes sociais vão contra a corrente, resistindo e opondo-se ao que se esperava de si. Iremos tratar precisamente de casos em que se considera existir oposição a habitus sociais, familiares e principalmente nacionais. Este facto, em nosso entender, obriga-nos a ter em consideração a relação entre identidades sociais e identidades individuais e a reflectir sobre o carácter da acção individual.
O comentário aqui desenvolvido, suscitado pelo problema do livre-arbítrio, tem
como referentes exemplos colhidos no trabalho de campo e na reflexão sobre a experiência da dissidência na geração do autor.
Sobre a liberdade e a responsabilidade humanas:
questões persistentes
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Ignasi Terrades Saborit
Universidade de Barcelona
As actuais complicações normativas em torno à responsabilidade jurídica podem
parecer novas pois correspondem a novas situações criadas por uma complexidade sem precedentes no desenvolvimento tecnológico e empresarial. No entanto, os princípios que se aplicam a cada passo do raciocínio normativo ou da decisão judicial e, ainda, a sua concordância ou contradição com a resposta social, são antigos. Fundamentalmente são três: (i) o princípio da utilidade ou equidade superior de um bem social e jurídico sobre a liberdade individual para fazer uso dele ou sobre a responsabilidade para responder ao seu uso indevido; (ii) o apelo à intencionalidade ou à volição pessoais para definir a natureza perigosa ou inofensiva de qualquer acção humana; (iii) o facto da responsabilidade corporativa não constituir um recurso de diminuição da responsabilidade individual nem o contrário, por mais que se tente desequilibrar a lança numa ou noutra direcção.
Como exemplo, focaremos as normas e legislações actuais sobre responsabilidade
por danos e prejuízos e as competências do arbítrio judicial; proporemos uma reflexão a partir de casos de sociedades com ordenamentos jurídicos vindicatórios.
(conferência em Castelhano)